Autodefesa da pessoa com deficiência: um processo de autonomia e participação

0
460
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Nela vemos um rapaz e uma moça, com síndrome de Down. Eles estão abraçados. A moça está em primeiro plano e o rapaz está atrás dela. tem a pele morena clara e o cabelo castanho, liso, na altura dos ombros. Ela usa uma camisa xadrez e um lenço, em forma de tiara, no cabelo. O rapaz é moreno, tem pele clara, e está usando um boné verde e uma jaqueta preta. Ele beija a bochecha da moça. Fim da descrição.
Autonomia é fundamental para garantir a independência de pessoas com deficiência intelectual (Foto: Divulgação)

Por: Mônica Neves Rocha Arten*

Muito se fala em autodefesa da pessoa com deficiência e o discurso passa por falas bem elaboradas, todavia na prática ainda há um caminho longo a percorrer. Para discorrer acerca de autodefesa preponderamos sobre uma palavra fundamental: autonomia. E autonomia está ligada automaticamente à independência. Para que eu atue como profissional, de fato, na autodefesa da pessoa com deficiência, é imprescindível que o conceito de autonomia esteja claro e atrelado à minha vida pessoal. Só depois desta reflexão é que terei condições de realizar e desenvolver um processo de autonomia para a pessoa com deficiência e, consequentemente, para sua família.

Quando falar de autonomia, devo ter a capacidade de mostrar aos familiares o quanto ela é necessária e gratificante e, ainda, quanta independência a pessoa com deficiência terá se for estimulada. Para isso, a família deve realizar um exercício de confiança e de delegação de responsabilidades e isso não é uma tarefa fácil, considerando que historicamente a pessoa com deficiência intelectual foi infantilizada e protegida pelas suas respectivas famílias. Claro que esta proteção sempre teve o objetivo de buscar o melhor para os seus filhos, pois quando a família recebe a notícia de que seu filho tem uma deficiência, vem à tona o sentimento de incapacidade e vulnerabilidade que costuma durar por toda a vida. E ainda não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade que forma pessoas para produzirem cada vez mais, e quanto mais se produz, mais eficiente se é considerado. Logo a pessoa com deficiência nesta sociedade sequer é vista e notada como um indivíduo produtivo e com habilidades.

É interessante pensar ainda que autonomia difere, em seu conceito, de família para família: para umas pode ser sinônimo de liberdade e conquista, para outras é sinal de perda e receio. Já a autodefensoria, diferente do que muitos pensam, acontece no dia a dia, é um preparo. É um trabalho que deve ser realizado em conjunto, com equipe multidisciplinar e em família. Autodefesa é o princípio universal que se aplica a todas as pessoas. Pode ser definido como reconhecimento da sua capacitação individual para tomar decisões e fazer escolhas que são importantes em sua vida diária.

A importância do trabalho dos atores sociais e da família neste processo do exercício da autodefesa se torna imprescindível, pois só terá efetividade se levarmos em consideração o olhar que temos sobre a potencialidade das pessoas com deficiência, conforme reflexão abaixo:

O conceito de deficiência para o profissional, organização em que atua e para família norteará a ação de autodefesa, ou seja, se este grupo não acredita na pessoa com deficiência, muitas vezes, sequer tenta um trabalho promovendo sua autonomia e participação, pois já parte do pressuposto de que esta pessoa não é capaz e nunca terá autonomia. É fato de que nos discursos o supracitado acima é visível, porém na atuação do dia a dia a pessoa com deficiência ainda é muito podada para ser quem ela é; profissionais aderem à uma fala inclusiva e democrática, mas atuam de forma autoritária, pensam, desejam e fazem por eles”.

Autodefesa é um projeto em que ações de autogestão devem acontecer em todos os momentos. É educar para autonomia, tanto a pessoa com deficiência, quanto sua família, mas para isto o profissional deve se despir de seus valores arraigados a conceitos e ações arcaicas. Pautar-se no programa de autodefensoria é respeitar o outro; é também aprender e construir com a pessoa com deficiência este trabalho de self advocacy”.

“Toda prática educativa demanda existência de sujeitos, um que ensinando, aprende, outro que aprendendo, ensina (FREIRE, 1996)”.

A pessoa com deficiência deve ser vista de acordo com a idade que ela tem, para que assim não seja sempre assistida por uma ótica infantilizada e possa ter uma vida mais típica possível. A autodefesa é iniciada logo na infância e estende-se por toda vida.

Não adianta fazer grupos esporádicos de autodefensoria e avaliar que o trabalho está sendo realizado. A autodefensoria se dá no cotidiano; ela passa por uma mudança de atitude, é além de teoria, por isso, é algo tão complicado de ser implantado. O trabalho deveria ser simples, basta acreditar na pessoa com deficiência, respeitando suas singularidades e limitações, mas valorizando suas potencialidades e habilidades; estimular a família a incentivar a pessoa com deficiência, para que ela possa expressar seus desejos, receios e vontades. A autonomia não ocorre com data marcada.

À medida que crescemos temos que ficar aptos a tomar decisões. Entendemos que auto-advocacia é a capacidade de argumentação em defesa própria, exercício da cidadania plena e empoderamento. É o reconhecimento dos direitos e capacidades para determinada tarefa.

Para que a pessoa com deficiência tenha auto-advocacia, primeiramente deve ser empoderada, ela necessita ser apoiada, informada e capacitada neste processo de autodefesa. Não é simplesmente um curso que se faz em um determinado período e considera-se concluído o trabalho de autodefensoria. É necessário viver experiências, ser estimulada, tomar decisões, fazer escolhas que vão aumentando em complexidade, na medida em que a pessoa vai crescendo e ampliando seu círculo de relações.

Jamais deve-se usar o ‘achismo’ em um trabalho de autodefensoria. Este deve ser norteado em uma perspectiva dos direitos humanos e pela inclusão social. Os avanços na legislação acerca da deficiência são notórios, mas a lei por si só não garante a inclusão. Por exemplo, uma pessoa com deficiência tem direito à educação e pode ser matriculada em uma escola regular, mas pode não se sentir pertencente àquela instituição e ser uma pessoa invisível por todos que a permeiam. Portanto falar de autodefesa é também romper os muros das APAES; é proporcionar, reforçar e ressaltar que a autodefensoria se dá para além das organizações que apoiam e atendem estas pessoas. Para o exercício pleno da autodefensoria há que se considerar a pessoa com deficiência, sua família e o contexto em que a mesma está inserida – sociedade.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Nela temos informações referentes ao Esquema número 1. Dentro de um círculo ovalado maior temos um quadro na cor verde em que está escrito: APOIO DOS PROFISSIONAIS / COMUNIDADE. Em um segundo círculo, menor, dentro do primeiro, está escrito, também em um quadro na cor verde: FAMÍLIA. Num terceiro círculo, menor, dentro dos outros dois círculos, também em um quadro verde, está escrito: PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Fim da descrição.
Imagem: Reprodução

 

Ao se falar de autodefesa as palavras se tornam repetitivas, como já dizia uma canção: “sei que as vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?”. Mas como é fato que a autodefesa da pessoa com deficiência é uma quebra de paradigmas, pressupõe uma transformação atitudinal, por isso é necessário ressaltar a importância de acreditar na pessoa com deficiência, permitir e colaborar para que ela construa sua identidade.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Nela temos informações referentes ao Esquema número 2. Ao centro temos um círculo ovalado, com um quadro na cor bordô, em que está escrito: CONSTRUÇÃO DA AUTODEFESA. Ao redor do círculo central temos quatro quadros, nos cantos superior e inferior da imagem. No quadro do canto superior esquerdo temos a palavra: IDENTIDADE. No quadro do canto inferior esquerdo temos a palavra: AUTO-ESTIMA. No quadro do canto superior direito temos a palavra: AUTO-CONHECIMENTO. E, no quadro do canto inferior direito temos a palavra: AUTO-CONFIANÇA. Fim da descrição.
Imagem: Reprodução

 

A identidade é construída na ação. Deve-se permitir que a pessoa com deficiência faça, crie, imagine, produza, escolha. É potencializar suas habilidades e valorizar as pequenas atitudes e avanços. É algo que pode parecer óbvio, mas sabemos que a pessoa com deficiência ainda é vista de forma assistencialista, segregada, fragmentada e tutelar. Trabalhar a autodefesa destas pessoas não precisa de uma receita pronta, mas requer pesquisas, leituras, ações e o principal: acreditar que este trabalho é possível e necessário.

 

LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa. Editora Paz e Terra. Coleção Saberes. 1996. 36ª Edição

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Nela está a assistente social Mônica Neves Rocha Arten, da APAE DE SÃO PAULO. Ela é uma mulher com pele clara, cabelos loiros, lisos e compridos. Ela usa uma camisa xadrez branca e preta. Ela está com os braços cruzados e sorri. Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Mônica Neves Rocha Arten é assistente social desde 2004, especialista em gestão pública e gestão de políticas sociais. Assistente social da APAE DE SÃO PAULO do núcleo de políticas do programa de autodefensoria. Coordenadora de autodefensoria da Federação Estadual das Apaes de São Paulo, 2011/ atual. Tem experiência na infância e juventude SAICA VOVÓ ILZA – serviço de acolhimento institucional a criança e adolescente. Acolhimento de adolescentes gestantes e mães, 2016/ atual; na área de assistência social CRAS- Centro de referencia de assistência social – Diadema 2004/2009; e na área da infância CEDECA – Centro de defesa e garantia de direitos – com crianças e adolescentes em situação de risco e rua, 2004/2009.

 

[1] Esquema mencionado por Moira Sampaio Rocha em curso “A construção da autodefesa pelas pessoas

[2] Esquema mencionado por Moira Sampaio Rocha em curso “A construção da autodefesa pelas pessoas com deficiência intelectual. Batatais. 2013.

 

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here